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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

" O MENDIGO"

Ele sempre aparecia à noitinha,por volta das  7:00 da noite. Pontual como um lorde inglês,embora nada tivesse de nobre...Pelo contrário! Era bem pobre  ! Mas,  às vezes, aparecia com um velho blazzer que alguém lhe dera,e "parecia gente" como dizemos por ai.
Na verdade ele,aparentemente, era apenas mais um  dos mendigos que ia pedir alimentos lá no bar do Posto de gasolina, cujo  nome de fantasia era Posto "Scarabocchio", onde eu trabalhava, que se situava na Praça Cívica,em Goiânia. Este foi meu primeiro trabalho, logo após eu "dar baixa" do Exército Me lembro bem do nome do gerente deste Posto o Sr.Manoel Vieira,que continuei sempre encontrando nas ruas de Goiânia, mesmo depois que sai do tal trabalho....
E o  "Branco",como era conhecido o Mendigo, tinha feito uma certa "amizade" comigo, e por isso,sua "janta" ,que eu lhe dava, era,às vezes, queijo-prato com azeite e uma cerveja. Esta ele pagava,pois eu somente lhe dava refrigerante,e ele não queria.... 
Este queijo-prato era o um dos "tira-gostos" que servíamos aos  frequentadores do posto, que tinha umas mesas com cadeiras  do lado de fora,frente ao barzinho , para que eu, ou meu amigo  Jacinto servíssemos os "drinks" e  outras "coisitas" mas,. para os clientes. É, porque  muitos queriam café, refrigerantes,etc. Este Posto era inovador,neste tipo de Barzinho, antes de aparecerem as tais "Lojas de Conveniência".
 Tínhamos nossa freguesia garantida,principalmente à tardinha,quando os funcionários do Fórum, da Seplan e do Tribunal de Justiça iam abastecer ou lavar seus carros e passavam no barzinho,onde eu era uma espécie de vendedor-atendente, garçon, etc.
De certa forma o "Branco",o tal mendigo,atrapalhava um pouco o ambiente , pois,maltrapilho e sem tomar banho, seu "cheiro" e sua presença era incômoda para o ambiente. Alguns lhe davam uns trocados,outros pediam para que eu o mandasse embora... O que eu não fazia !
Mas ele não era tão inconveniente assim não. Eu o colocava em uma mesa, separada, dava-lhe o lanche,que,segundo ele,era sua "janta" (os salgados)  e logo ele ia embora. A não ser que algum freguês lhe desse atenção e então ele passava a mostrar sua intelectualidade,mostrava seus conhecimentos literários.
Isso mesmo, ele gostava de recitar versos falar de escritores,literatura, e contar estórias.
Ele era um tipo diferente,não era negro,como a maioria dos pobres que perambulam pelas ruas. Era bem claro e tinha também os olhos claros  Eu diria que,bem vestido,barbeado,seria um homem simpático !(Não costumo achar homem bonito)...
 Mas ele tinha uns 40 e poucos anos de idade e um rosto maltratado pelo tempo.... Uma barba rala,por fazer e ar cansado. E ele falava bem, era articulado. Diferente da maioria  dos muitos mendigos que vemos por ai. Mas não gostava de falar muito de si mesmo,de sua vida passada.
Assim,durante uns 10 meses,mais ou menos,do tempo total de um ano e meio  em que trabalhei no local,sempre via o "Branco" e ele sempre passava lá,no mesmo horário. E às vezes me pedia um cigarro, porém como nunca fumei,e como eu não podia dar uma carteira dos maços  dos que vendíamos no bar,ele acabava por pedir a algum  dos fregueses,que ,invariavelmente,lhe dava um ...
Seu prazer era ficar ali,comendo a "janta"que eu lhe dava e fumando seu cigarrinho. Cerveja ele bebia,mas nunca lhe dei bebida alcoólica. Estas ou ele comprava ou os outros fregueses pediam,pagavam e mandavam eu levar na mesa dele...
 E muitas vezes ele comia "bolinhos" de bacalhau, amendoim torrado, peixes fritos, ou mandioca frita à milanesa,entre os salgados e tira-gostos que fazíamos  para  os fregueses
Nossa clientela era selecionada, tinha Procuradores de Justiça, Juizes e alguns funcionários do TRE e dos Correios,órgãos que funcionavam na mesma Praça Cívica (Praça Pedro Ludovico Teixeira),onde se localizava o Posto,onde eu trabalhava. Alguns órgãos e empresas desta ainda estão por lá.
Numa ocasião,havia um Professor de um curso de línguas sentado em uma das mesas, que começou um "papo" com o "Branco". Então,dessa vez, dando "corda" para ele, o mendigo  manifestou  ter um conhecimento acima da média,para uma pessoa que vivia nas ruas. Recitou versos de Castro Alves, de  Luis de Camões e falou de Guimarães Rosa, Euclides da Cunha,etc. Recitou inclusive o "Navio Negreiro", sem errar uma só palavra.E eu sabia,pois já tinha estudado essa parte da literatura,no Colégio,pois eu iria fazer o vestibular no ano próximo...
 Todos que ouviram o "Branco" ficaram admirados. Notaram que ele era um mendigo diferente !
 Depois, o mendigo se foi, deixando os presente boquiabertos.
Eu também fiquei curioso. Aquele mendigo,não era um "pedinte" comum, pensei.
Depois desse dia,sempre que ele vinha,eu tentava saber mais alguma coisa dele. Perguntava-lhe sobre  sua vida,seu passado.Mas ele não dizia,e achava ruim se eu insistisse.
Mas um belo dia , ele chegou , se sentou na mesma mesa que eu sempre reservava para ele,e ficou à espera de sua "janta".. Pediu uma cerveja,e depois mais outra cerveja. E não pediu nada a nenhum dos presentes,como às vezes fazia... E  ficou sentado , absorto em seus pensamentos,a ouvir a música ambiente que tínhamos alí no barzinho do Posto.
 E neste dia também ele não foi embora rápido,como das outras vezes. Embora tenha chegado às 7:00 como de costume,neste dia se demorou bastante. E mesmo depois do seu "jantar", ele continuou alí, sentado,calado,olhando para os carros que passavam pelo posto. Ficou muito tempo assim,calado,e de meia em meia hora,pedia outra cerveja. Ele gostava de ouvir músicas de Neil Diamond..E eu também !
Lá pelas 9;30 da noite,mais ou menos,todos os outros fregueses já tinham ido embora,pois sempre esse era o horário deles. Afinal eram pessoas de bem,que iam alí,após um dia de trabalho...no "fim da tarde!"
 Mas o "Branco" não tinha ido. E então,sem muito trabalho,sentei numa cadeira,junto à "sua" mesa e comecei a conversar com ele. Ele,já "alto" de tanto beber, me disse que neste dia se comemorava a data da morte de sua mãe,a pessoa mais importante para ele (para a maioria de nós mortais,também). Me disse que nunca tivera uma esposa e nem saberia dizer se alguma namorada dele tinha tido um filho dele. Disse-me que estava achando bom desabafar comigo !!  E continuou dizendo que  , "era que este era um dia especialmente triste para ele, pois faziam ,exatos,três anos da morte de sua mãe,num acidente,perto de Goiânia.E que ele estava no carro,quando isto aconteceu,sofrendo apenas uns arranhões,na cabeça e nos braços....Mas  se dizia culpado pelo acidente. Disse que não conhecera seu pai biológico,que era do Sul do Brasil, onde ele também nascera. Disse ainda que até a data desse fatídico dia,sua vida tinha sido estudar,e trabalhar,para ajudar a si próprio,lógico,e à sua mãe. Disse que tinha se formado em Letras, e que até sua mãe falecer,durante mais de dez  anos ininterruptos tinha sido professor de Literatura,em cursinhos pré-vestibulares,no sul e aqui em Goiânia.
- Daí o seu conhecimento pelos autores,pelos poetas,etc. pensei !
 E por último me disse que" não conhecia nenhum parente seu aqui em Goiânia e que,com a morte de sua mãe,ficou meio "perdido",entrou em depressão,não mais conseguiu trabalhar,fazer nada. Nem ensinar,como fazia antes. ..."Que sua vida tinha acabado também,naquele dia"...
E finalmente,com lágrimas nos olhos me disse que, " sem mais parentes conhecidos e sem ter coragem de enfrentar a vida, tal como vivia antes, passou a perambular pelas ruas, de bar em bar,e dormindo nas calçadas ....como se quisesse punir a si mesmo" . E,assim," sem querer,sem planejar isto,tinha se tornado num mendigo,alcoólatra,tal como eu o conhecera ". 
Ouvi esta sua estória,que me "partiu" o coração e pensei, a partir daí,em querer ajudá-lo,de alguma forma. E lhe disse que iria "arrumar" um lugar para ele morar,e talvez ele pudesse se recuperar,numa clínica,etc. Que eu iria procurar entrar em contato com algum parente dele, de seu pai ,ou da sua mãe
Ele não agradeceu minhas palavras e nem disse se era isso que queria. Somente ouviu,calado...
E desse dia em diante,nunca mais passou lá no bar do Posto...E eu nada pude fazer por ele,cujo nome nem tive o cuidado saber. Ele era o "Branco" e só...
Dele, me marcou,além de sua estória,uma frase que escreveu em um "guardanapo" de papel,que ficava na mesa: 
 "É uma vida perdida, quando vivemos a vida que não queríamos viver..."

ALG  24 de fevereiro de 2012

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